| Ator certo no papel certo - Ademir Luiz |
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| Seg, 22 de Fevereiro de 2010 14:51 | |||
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Alguns personagens se fundiram de tal forma a personalidade de seus interpretes que nenhum outro ator pode ousar encarná-los sem ficar ridículo ou parecer um farsante. O vagabundo Carlitos só pode ser feito por Chaplin. Zé do Caixão só pode ser feito por José Mojica Marins. Os gêmeos Rambo e Rocky só podem ser feitos por Stallone. Por outro lado, a história do cinema está repleta de personagens que foram encarnados por diferentes atores de forma marcante. 007 é um caso exemplar. O James Bond canônico é Sean Connery. Ele criou a persona cinematográfica do espião. Não apenas interpretou-o muito bem, mas tornou-se o próprio Bond, James Bond. Contudo, todos seus intérpretes, do pouco expressivo George Lazenby ao brucutu Daniel Craig, possuem seus defensores. Pessoalmente, considero Timothy Dalton, protagonista de “007 Marcado Para Morte” (1987) e “007 Permissão Para Matar” (1989), um ótimo Bond. Foi, até agora, o único ator que fez o papel conforme descrito nos livros de Ian Fleming. Mesmo assim é difícil imaginar que Connery foi superado. Sua interpretação perece ser definitiva. Esse é o ponto. Existem interpretações definitivas? E quando se trata de um personagem histórico? O erudito teórico e roteirista de cinema Jean-Claude Carrière escreveu em seu livro “A Linguagem Secreta do Cinema” que: “enquanto o tempo flui inexoravelmente, um dia teremos filmes greco-romanos, assírios e pré-colombianos. Qualquer período, quer tenha ocorrido antes ou depois da efetiva invenção do cinema, vai tender a se fundir com outros períodos (excetos para os eruditos, que provavelmente serão poucos e esparsos, isolados, talvez maltratados). E na mente coletiva, que pela preguiça e pela falta de imaginação, diferencia muito pouco as coisas, Marco Antônio vai ter as feições de Marlon Brando, seguindo-se a surpresa de ver outro filme em que as mesmas feições são dadas a Napoleão, de forma que alguns se maravilharão com a semelhança entre os dois grandes homens”. Mas Napoleão pode ter dono? Marco Antônio pode ter dono? E Richard Burton? Cleópatra é Elizabeth Taylor? Quem é César? Com esse complexo problema filosófico em mente (sim, é uma ironia) elaborei uma humilde (não, não é uma ironia) lista de candidatos a intérpretes definitivos de personagens históricos. Vale lembrar que nem sempre essas atuações ocorreram em grandes produções, o que facilitaria a disseminação da unanimidade burra ao estilo Nelson Rodrigues. Comecemos pelo dito Marco Antônio de Brando. Na verdade, existe um triunvirato de Marcos, formado por Brando, Burton e o azarão James Perefoy, da série “Roma”, da HBO. O último fica em vantagem por ter composto um tipo mais ambicioso, grosseiro e viril; conforme Marco Antônio é descrito nos documentos de época. O realismo é a proposta principal de “Roma”. Por esse mesmo motivo, Ciarán Hinds, colega de elenco de Perefoy, conseguiu compor um César mais instigante e cheio de nuanças do que Rex Harrison e Louis Calhern. Apesar do brilhantismo de Marlon Brando no filme “Desirée” (1954), creio que o Napoleão de Philippe Torreton, de “Monsieur N.”(2003), esteja mais próximo do que podemos chamar de definitivo. Arrogante, altivo, nanico, feio, sedutor. Não há como duvidar que seja capaz de conquistar a Europa. Ainda por cima, esse Napoleão fala francês. Torreton ecce homo. Apesar de ajudar, nem sempre falar no idioma original é fundamental. Considerando a hipótese que Jesus de Nazaré tenha mesmo existido, o aramaico exibido por Jim Caviezel, no pornográfico “A Paixão de Cristo” (2004), não o habilita a ser seu melhor representante na Terra. Acho que Robert Powell, de “Jesus de Nazaré” (1977), e Jeffrey Hunter, de “O Rei dos Reis” (1961), dividem a honra com iguais méritos, mesmo pregando o Sermão da Montanha em inglês. De mesma forma, o Beethoven em inglês de Gary Oldman parece insuperável. Uma interpretação tão poderosa que tornou irrelevante o fato de “Minha Amada Imortal” (1994) ser um filme apenas mediano. Deixou para trás os esforços consideráveis de Ed Harris em “O Segredo de Beethoven” (2006). Harris é Pollock, não é Beethoven, é pintor, não músico. Oldman tem mais cancha para músicos, já que também é Sid Vicious, se é que Vicious foi músico... Em se tratando de músicos, mesmo o Salieri de “Amadeus” (1984) não sendo o Salieri da história, o Salieri de F. Murray Abrahan será para sempre um Salieri histórico. Já Tom Hulce dificilmente é Mozart, apesar de seu desempenho exagerado servir muito bem ao filme.
Senhores da Guerra são sempre grandes personagens. Nessa galeria, não há dúvidas de que Peter O’Toole é T. E. Lawrence, George C. Scott é Patton e Bruno Ganz é Hitler. Mas façamos amor e não a guerra. Entre os poetas, Philippe Noiret é Neruda, Leonardo DiCaprio é Rimbaud e Val Kilmer é Jim Morrison. Por outro lado, apesar do Oscar, Nicole Kidman não é Virginia Woolf, é um nariz esforçado. Mas nem uma sobrancelha esforçada Salma Hayek chega a ser como Frida Kahlo. Woolf, Frida e também Cleópatra esperar por suas encarnações cinematográficas definitivas. Nada contra as intérpretes femininas de modo geral, visto que Isabelle Adjani é Camille Claudel e Gwyneth Paltrow é Sylvia Plath. Elas, sim, foram mulheres de “verdade”. Alguém discorda?
Dezembro de 2009
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Comentários
Nada mais besta que Nicole Kidman fazendo Virginia Woolf com aquele nariz, v. está certo. A idéia ali era de que era preciso enfeiar uma mulher bonita para que ela parecesse uma intelectual, quando, na verdade, a seu modo estranho, Virginia foi uma belíssima mulher. E creio que v. deveria ter lembrado da perfeita caracterização de Jammie Foxx para Ray Charles. Na verdade, caro Ademir, seu artigo é muito instigante e podia ter rendido outros...
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