| Da Caixa de Abelhas a Janis Joplin, a poesia de Kátia Borges - Sandro Ornellas |
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| Seg, 22 de Fevereiro de 2010 14:53 | |||
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Tratarei da poesia da baiana Kátia Borges após ler seu último livro, Uma balada para Janis. Para mim é um belo exemplar do que há de melhor na poesia brasileira contemporânea. Ela já havia lançado De volta à caixa de abelhas, sua estréia em 2001, pela Empresa Gráfica da Bahia. Oito anos depois, volta com seu segundo livro de poemas, pela Editora P55, como parte da Coleção Cartas Bahianas. Admito que não gostei do formato de carta dado aos livros da coleção, apesar de reconhecer seu possível apelo comercial, tão ao gosto kitsch conceitual do mercado. O acabamento gráfico da capa é sóbrio, mas o interior mantém um certo aspecto descartável. E cartas (públicas ou privadas) eram (são) tudo, menos descartáveis, sobretudo seu interior. Quero mesmo, no entanto, é falar dos poemas de Kátia. Simplificando – e para os fins deste texto, obviamente –, afirmo que costumam as estréias ser de dois tipos: primeiro, o neófito lança um livro elogiadíssimo, burilado ao longo de muito tempo, e se transforma em queridinho da imprensa por breve temporada; ou, segundo, ele é mais contido e lança uma espécie de antologia da sua produção ao longo dos anos que antecederam seu début. Leio o primeiro livro de Kátia como um exemplo do segundo tipo. Se há uma unidade de estilo, a quantidade de poemas restringe – paradoxalmente – o alcance dos mais bem acabados, invisibilizando muitas das qualidades da poesia da baiana. Mesmo que Uma balada... também possua muitos poemas (51 contra 61 do primeiro), a divisão em 4 partes criou uma impressão de menor ajuntamento, dando mais unidade à sua leitura. De volta... já possui muitos dos traços do seu segundo livro, mas sempre o li com problemas justamente numa das grandes qualidades dessa poesia: a distensão verbal. Poemas poderiam ter sido cortados da leva final de De volta..., e estrofes poderiam ter sido retiradas de poemas potencialmente bons. Alguns exemplos que destaco são “Broa”, “Intermezzo” e “Kafka”, que alternam boas passagens com outras desnecessárias. Mas em De volta... também encontramos trechos de emoção condensada, que em Uma balada... irão se multiplicar, demonstrando o quanto a autora teve coragem para trabalhar sua voz. Uma voz difícil de se afirmar, pois voz baixa, sem grandiloqüência sintática ou lexical, sem grandes assertivas morais, sem fogos de artifício verbais, mas uma voz que toca na nossa mais irredutível humanidade: “(...) Imensidões / me deixam tonta. Só presa ao chão posso voar” (Uma balada..., p. 06); “Tão pouco, este amor, / pelo qual agradeço. / E tão imenso. / (...)” (Uma balada..., p. 14) . Não consigo pensar a poesia de Kátia como humanista, pois para isso deveria possuir tudo o que atrás listei (altitude, grandiloqüência, assertividade...), mas sua poesia é humana, limítrofe na sua fragilidade, sublimada por pontos de luz curiosamente através de uma linguagem dessublimada – “Invento a paz: panos brancos na janela” (De volta..., p. 36); “Um dia comum não te guarda” (Uma balada..., p. 33) – em que a elevação afetiva é encontrada precisamente no diário e no banal. Lendo sua poesia – sobretudo do primeiro livro –, penso numa cidade de Salvador cotidiana e invisível para quem não tem olhos para ver, com personagens que ao olhar da poeta ganham nome, temperamento, endereço, profissão e cotidiano. São parentes, vizinhos, amigos, conhecidos e populares, ao lado de poetas, cantores e da própria voz do sujeito lírico, que descreve impressões nostálgicas de uma cidade cheia de luz natural, ruas apertadas, tipos surpreendentes, bairros característicos, cansaço da labuta diária e uma alegria em tom menor, crepuscular e melancólica (bem distante da histeria dos trios elétricos): “(...)// Saíamos pelo Centro frouxos de emoção, / esnobando os ônibus e percorrendo a pé / as ruas cheias de ambulantes. / (...) // Andar era mais simples e aproximava os corpos.” (De volta..., p. 51), “Tudo é verão, e nada é / nunca mais” (Uma balada..., p. 19). A narratividade da poesia de Kátia Borges não diminui sua força poética. Vejo aí uma característica da poesia brasileira desde os anos 1970: buscar a poesia menos em truques de linguagem e formas fixas e mais da força afetiva do dizer, do contar, do olhar voltado para as sombras e luzes cotidianas, ressaltando-as: “Fazendo poesia, vamos, os delicados, / sendo triturados pelas engrenagens / desta grande máquina. Alguns, / mais selvagens, farão versos com sangue, / escrevendo impropérios com a ponta das unhas. / Outros, mais tranqüilos, perseverarão / no lirismo com o que lhes restar de sanidade” (Uma balada..., p. 37). Aliás, a narratividade só aumentou do primeiro para o segundo livro. Os poemas parecem construir uma grande história descontínua de impressões e experiências em quatro partes: “Port Arthur, Texas”, “High Ashbury, San Francisco”, “Pearl” e “Landmark Hotel”. Desconheço se há poemas que façam referência direta à vida de Janis Joplin, mas os títulos acima querem apontar para isso, mesmo quando há poemas que misturam Janis a outros sujeitos – reais ou inventados. Suas referências poéticas são, sobretudo, Manuel Bandeira e Ana Cristina César. E Kátia poderia repetir com propriedade o poeta de “Belo belo belo / tenho tudo quanto quero” e a poeta de “Belo belo. Tenho tudo que fere”, pois serenidade e melancolia são – ambas – tópicos fortes de sua poesia. Mas sublinho que as referências a Bandeira e a Ana C. – mesmo sendo diretas sobre Kátia – o são também de um bom número de poetas das novas gerações. Desde que Cacaso defendeu em certa poesia dos anos 1970 uma programática simplicidade bandeiriana e que Ana Cristina tratou de colocar luvas de pelica e certo ar pop nessa simplicidade, a poesia contemporânea se afastou do modernismo cerebral, abstrato, fragmentado e impessoal (por mais que ele também tenha tido seus continuadores). E Kátia tem personalidade própria no trato dessas referências (o que bem poucos são capazes): “A vida, amiga, não é um Dinah Shore Weekend, / de ninfas seminuas e Joan Jett com adesivo / Dyke Rules na guitarra. A vida é mais punk / que Joan Jett e Carmen Electra juntas, / e não tem o charme endinheirado / de uma Second Life. É outra espécie / de metáfora, metaverso, visibilidade, invisibilidade, / jogo de espelhos, construção, composição / de identidades. (...)” (Uma balada..., p. 32) e “Vivemos no clichê / da única certeza, / a frágil esperança / de que o acaso / mande um mote, / mostre a trilha. / Deus é esta fé / em enganar / a Iniludível. / (...)” (Uma balada..., p. 34). A poesia de Kátia Borges é absolutamente contemporânea pela transitividade que busca uma comunicação com o leitor, não esperando que ele venha em sua direção. Certos pactos de leitura criam uma atmosfera de cumplicidade entre poeta e leitor. Falo dos referenciais em comum, que vão da própria cidade à afetos que são construídos de maneira comunicável – “Nada além de uma canção bonita / e de uma camiseta barata, / pintada à mão. / (...)” (De volta..., p. 49), “Vivendo no abandono, saio do cinema, a última sessão” (Uma balada..., p. 46) –, e da interlocução que é construída em forma de referência direta a um ”tu”: “Beleza, moça, é algo que some, / nunca se garanta / nesse corpo de louça, / nesse corpo de Barbie / (...)” (Uma balada..., p. 03) ou a um tom de recordação íntima compartilhada com o leitor: “Fomos, eu e minha mãe, ao sapateiro / numa rua esquisita, e bem antiga, / no velho centro. Ela, ainda bem firme, / conduzia o carro sem tocar no volante, / enquanto descíamos vielas repletas / de casarões muito pobres. (...)” (Uma balada..., p. 05). Se a estréia de Kátia Borges com De volta à caixa de abelhas, em 2001, abriu o século da nova poesia brasileira com uma tímida e indecisa expectativa, sua segunda vinda, com Uma balada para Janis, no falso fim de década que é 2009 (a década só se encerra em 2010), é um sopro de bom ar para essa nova poesia brasileira. Sua escrita tem a cara da internet, pois é direta, clara, sublime e cotidiana ao mesmo tempo e possui cumplicidade e interlocução com o leitor, mas também traz à mesma “geração internet” uma certa reflexão pessoal e uma pedagogia dos espíritos, o que falta em tempos de euforia consumista e visibilidade midiática excessivas. Esqueçam os jovens poetas queridinhos da imprensa, cheio de pose e grandes tiradas. Kátia Borges é uma poeta sem fogos de artifício, mas capaz de tocar o leitor no que ele possui de mais humano.
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