Marcelo Benvenutti PDF Imprimir E-mail
Seg, 22 de Fevereiro de 2010 15:00

Marcelo Benvenutti se define como escritor, mentiroso, colorado, cervejista, pai do Lorenzo e outras coisas que não interessam aqui. Autor dos livros de contos Vidas Cegas, O Ovo Escocês e Manual do Fantasma Amador, lançou recentemente ARQUIVO MORTO.



 

Lima Trindade - Fala um pouco da sua história. Como a literatura surgiu na sua vida? Quem você lia quando era moleque?


Marcelo Benvenutti - Cara, quando eu era piá (moleque no gauchês), não era muito chegado na ficção. Cresci na década (1970) em que a televisão estourou no Brasil, então era vidrado em TV mesmo. Mas, na minha casa, mesmo sem formação acadêmica, meus pais sempre leram muito, não ficção, mas jornais. Eu completava meu aprendizado lendo os jornais diários de Porto Alegre, não só futebol, mas tudo, e depois mais tarde consumiria os livros de história e as enciclopédias de muitos volumes que meu pai comprava. Então, ficção escrita, num primeiro momento, não era comigo. A minha imaginação rodava mais na história falada. Meu pai contava muita história. Da vida dele. Da vida dos outros. Ele tinha uma ótima memória para histórias. Pena (mentira) que ele sempre inventava e aumentava cada vez que contava de novo.


L.T. – Nessa época você já pensava em escrever?


M.B. – Não. Eu pensava em ser zagueiro, ser radialista, ser político (naquela época era interessante querer derrubar o governo). Mas depois me prestava a escrever diálogos. Se eu gostasse de teatro talvez continuasse escrevendo. Mas eu não gosto. Tentei gostar. Mas ver pessoas no palco me enerva. Eu fico esperando que elas errem. Por isso prefiro cinema. Não tem como errar. É tudo editado. Na boa, eu me preocupo com os atores. É um lance meio sem noção, mas é verdade. Depois, é claro, a educação direcionada para o aprendizado prático minava as iniciativas artísticas dos alunos daqueles anos de ditadura. Quando, lá pelos 10 anos, me interessei a colocar no papel minha imaginação, o massacre da cultura do utilitário jogava contra minhas expectativas. Minha sorte foi que sempre gostei de matemática, então não me importava muito com essa censura que se tornou uma autocensura: emparedar a imaginação.


L.T. – Chegou a participar de algum tipo de concurso? Acha importante esse tipo de iniciativa para a descoberta e valorização de novos autores?


M.B. – Acho e não acho importante. É importante porque pode estimular alguém que não tenha para onde direcionar a imaginação. Um concurso é um objetivo e um objetivo sempre gera interesse, expectativa e, também, frustração. Sempre tento acompanhar os textos vencedores de concursos e eles sempre contam contra minha vontade de enviar qualquer tipo de trabalho pelo simples fato que os juízes sempre julgam a favor do mediano apaziguador ou do esteticismo acadêmico empolado. Como não me enquadro em nenhuma das classificações acima, não entro. Logo, não é importante, mesmo sendo interessante, pela grana, ganhar um ou outro desses. Os títulos não me interessam. Orgulho não enche barriga.


L.T. – Seus livros, excetuando-se Manual do Fantasma Amador, traçam um retrato urbano bem característico. São narrativas atuais, às vezes ácidas, outras violentas e impregnadas de cores autobiográficas. Você curte o papo que literatura e vida são uma coisa só ou isso é pura mistificação?


M.B. – Eu me interessei em mostrar, publicar que seja, meus escritos quando descobri a internet, lá por 1995. Na época tinha um zine, assim como antes xerocava alguns para os amigos, no GeoCities. Era uma pré-história dos blogs. Tudo em HTML de Netscape, mal feito mesmo, porque nunca aprendi a editar. Então, quer dizer que eu tinha lá meus 25 anos, fui publicar um livro com 31, e minhas influências ainda giravam em torno de Orwell, Huxley, Kafka e toda sorte de confusão política ou anarquista. Com o tempo, e os bares, fui criando uma comunidade, meus amigos, que orbitam num terreno etílico-roqueiro-undergroudizinho-portoalegrense que, claro, influenciou e fez uma suruba na minha mente, juntando tendências rebeldes pós-adolescentes com uma certa misantropia boêmia. Quando esse mundo se formou que esse retrato foi se fechando: vazio existencial, falta de dinheiro, classe média urbana perdida em meio a um monte de medos e neuroses. Se isso é a minha vida? É a vida de quase todo mundo, então não dá pra saber se é a minha ou a de qualquer outra pessoa.


L.T. – Tem um processo criativo definido?


M.B. – Tenho. Talvez eu anote uma frase num papel ou mande um email pra mim mesmo com uma frase que muitas vezes pode parecer desconexa. Daí, esqueço. Horas, dias, meses ou até anos depois posso voltar naquela frase e escrever um conto de uma só vez, entre uma hora ou duas. Volto uns dias depois para corrigir meus erros de digitação e quase sempre ele é finalizado quase como foi escrito na primeira vez. Eu gosto de imaginar que é como uma banda de rock que ensaia uma ou duas vezes e grava as músicas ao vivo, só dando uma finalizada mínima na edição.


L.T. – A experiência de ser pai do Lorenzo atrapalha o escritor ou ajuda? Você ainda escreve e bebe ao mesmo tempo?


M.B. – Atrapalha sim. O Lorenzo é um guri da bagunça. E eu curto que seja assim. Se não fosse assim, eu mandava fazer exame de DNA! Como a Betine, mãe do Lorenzo, trabalha à noite, eu me viro de pai-babá. Quando sobra tempo, eu durmo. Ou tomo umas latinhas pra espairecer. Assim já dizia Chico Science.


Quanto a escrever bêbado, te garanto que escrevo uns poemas que ficam tão populares enviados por email que deveriam colocar um bafômetro na tecla "enter" dos computadores. O melhor mesmo é escrever de mente vazia. O efeito da ressaca provoca esse esvaziamento. Mas a fome, o excesso de café ou as madrugadas silenciosas têm o mesmo efeito. O bêbado funciona mais como um coletor de dados. Seu olhar capta coisas que sóbrios enxergaríamos de outro modo.


E, completando a resposta anterior, prefiro escrever escutando rock, nos fones, ou fora deles, em volume alto. Mas se não for possível, escrevo em silêncio. Ficou confuso?


L.T. – Considera que o Sul está vivendo um momento vigoroso na literatura? Se sim, enxerga ações que tornaram esse fenômeno possível?


M.B. – Acredito que no Brasil inteiro acontece essa movimentação. No Sul o marketing favorável é maior. É bom e é péssimo. É bom ter muitos novos escritores. É péssimo porque o Rio Grande do Sul, particularmente, é auto-excludente. Pra dar exemplo de outra área artística, a música, até hoje não decidiram o que fazer com uma estátua em homenagem à Elis Regina em Porto Alegre. Por quê? Porque ninguém quer a estátua. Porque mesmo tendo crescido musicalmente em Porto Alegre e depois se tornado uma estrela nacionalmente, Elis, para a posteridade gaúcha, é uma traidora. Voltou falando chiado, etc. A cultura gaúcha é, generalizando, orgulhosa e xenófoba. Resumindo, um artista gaúcho, de qualquer área, que queira ser reconhecido como tal, artista, deve, antes de tudo, deixar de ser gaúcho. O resto a competência estabelece, independente do vício de origem.


L.T. – No que se distingue a FestiPoa de outros eventos literários espalhados no país?


M.B. – FestiPoa é um evento literário-etílico-performático concebido dentro de uma forma libertária que só poderia mesmo ser concebido em Porto Alegre. Se fosse de outro modo, não seria FestiPoa. Seria FestiCuritiba, FestiCaxias ou, sabe-se lá, FestiMadalena.


L.T. – Em que pé está o seu romance? Fale um pouco sobre ele.


M.B. – Na verdade são dois. Um tá parado e o outro tá sentado. Eles tão naquela parte coletora de dados. A hora que eu tiver tempo eles saem, assim, tipo água represada. Levando tudo junto, inclusive minha sanidade mental.


Resumindo, um começou numa brincadeira sobre a relação entre cerveja e fralda e fala, nada autobiográfico, sobre as agruras de um pai de primeira viagem que gosta de cerveja e tudo que envolve o terceiro segredo de Fátima. Ah! Já foi revelado, né? Então é só sobre um pai bebum e desempregado trabalhando de dono de casa e babá. O resto é a fórmula da Coca-Cola. E o outro romance é uma história envolvendo dezenas de personagens que bebem, fodem, se drogam, vivem e morrem em Porto Alegre. Nada a ver comigo. Eu vivo num mundo de realismo fantástico. Quase mágico.


L.T. – Mas numa boa, você curte mesmo Engenheiros do Hawai (risos)?


M.B. – Quando explodiu a movimentação rocker gaúcha dos anos 80 eu escutei, lá no começo, quando eles pichavam o muro do Hospital do Exército com EngHaw (o pessoal era rebeldão naquela época) e cantavam "o nosso amor é uma abobrinha; eu escrevo teu nome numa sopa de letrinhas". Nessa época eu escutava Replicantes e Camisa de Vênus. O Camisa era tão gaúcho que eu não entendia o porquê daquele sotaque baiano. Os Engenheiros eram deslocados daquela turma, Júpiter, Edu K, Graforréia, entre outros, e resolveram ter música na Globo e fazer sucesso nacional, ou seja, deixaram de ser gaúchos, traidores malditos, logo, como um gaúcho que se preza, passei a detestá-los. Eu sou um cara rebelde e "toda forma de poder é uma forma de morrer por nada".


Saiba mais em:

http://www.kafkaedicoes.com.br/

http://marcelobenvenutti.blogspot.com/

Resenha de Nelson de Oliveira

 

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