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Mauro Sou nasceu em no interior de São Paulo, tem 47 anos, família nordestina, e foi criado em um desses bairros operários da Zona Leste.
Teve os mais diversos tipos de ocupação e hoje é desenhista gráfico. Mantém um blog que, segundo ele mesmo, carece de atualização, mas se pode encontrar alguns poemas, fotografias e desenhos: http://umemeio.blogspot.com
ronda
Entrei na pequena sala, ela me passou a arma, verifiquei, tudo certo. O pente sobre a mesa, dois guardados pelos bolsos do casaco e ainda outro na primeira gaveta. Sim, tínhamos nos cumprimentado normalmente, mas uma arma é sempre uma arma, é o foco. Sem exagero, digo que muda até o ar. Depois ela se sentou no colchonete, no chão, e se encostou à parede, cansada. Carreguei a arma, guardei na cintura, me sentei e fiquei vigiando a rua.
— Descansa. — Não consigo, quando estou muito cansada demoro pra relaxar. — Pelo menos deite um pouco. Ela concordou, ficou de lado com o rosto para a parede. Puxei um papel do bolso e o abri sobre o tampo.
Fico entre a janela e o papel, olho para um, olho para outro. — Não consigo... daqui a pouco... - fica sentada novamente, estica um pouco o pescoço e pergunta: — Que papel é esse aí? — Estou escrevendo. — Sem caneta? — Pois é. — Deve ter uma na primeira gaveta. — Não tem. — Já olhou? — Não precisa. — Se você não olhar não vai saber. — Se eu olhar não vou achar a caneta que deixei aqui ontem e vou ficar nervoso à toa. — Caramba, o que custa? — ... — Vou buscar um café, quer um? — uhum. Se levanta e sai. Espero um pouco, mais um pouco, abro sutilmente a gaveta. Sabia.
— Aqui o café, também descolei uma caneta. — Valeu. — Adivinha qual era o assunto na cozinha? — Como é que vou saber? — Você. — ! — Deve ser a essa sua barba malfeita, te deixa mais com cara de homem, a mulherada gosta. — Não sabia que você me achava bonito. — Eu não falei isso! — Parece que falou. — Ah!
Agora ela se deita e acho que vai conseguir dormir, mas ainda está de olhos abertos, pensando... cada vez menos... menos... Apaga.
Fiquei muito tempo divagando, de repente percebo que o cara da outra guarita está se posicionando para um tiro. — Bosta! — O quê? O quê? - pergunta enquanto acorda confusa. Saio rápido e chego perto do vigia. — O que foi? — Tem alguém subindo a rua. — Espera, pode ser uma isca. — Daqui já não erro. — Não atira, espera eu mandar. Aceno para alguém que está no pátio, que corre para mim. Avisa para reforçar o pessoal nos fundos e nas laterais também, atenção redobrada. Menos de um segundo, todos em alerta. Volto minha atenção para a rua. — E aí? - pergunto. — Ainda não dá pra ver direito, tá meio escuro, mas tá fácil. — Meleca! Pode baixar a arma... Mas que cretina! — Ixi, é a mulher do seu Jota! Mal sabia que tava pra morrer. Sem a bíblia debaixo do braço, nem reconheci. — Já pensou a merda que isso ia dar? Aamanhã mesmo a polícia invadia a fábrica. Segura a fera aí que já volto. Vou até o antigo escritório e pergunto pelo Jota, alguém o viu próximo ao depósito e já se apressa em trazê-lo. Pouco depois somos quase vinte, reunidos no pátio, em volta dele. Ânimos fervendo.
— Seu Jota, o senhor não foi dispensado às oito? — Fui. - responde, sem poder levantar os olhos. — E por que não foi pra casa? Não sabia que sua mulher vinha atrás? — Sabia. – responde, desanimado de encarar os companheiros. — E então? — Não podia voltar, não. De manhã minhas filhinhas perguntaram se hoje ia ter café. Eu disse que sim, garanti. Saí como se fosse pra comprar, ficaram lá sentadinhas esperando, mas quatro meses sem salário... Tô sem graça de viver pedindo ajuda pros vizinho... Fiquei sem coragem de voltar. Abaixou a cabeça. Num instante, várias vozes de consolo. 'Ô, seu Jota, chore não', 'Que isso, homem? Vamo dá um jeito'. Tapinhas no ombro. De todos os lados apareciam contribuições de qualquer tipo. Ninguém tinha quase nenhum dinheiro e tudo o que tinham entregavam sem dó. Alguém veio da cozinha com pão e alguns mantimentos. Depois o acompanhamos até o portão, onde era aguardado do lado de fora.
— Boa noite, seu Jota. — Boa noite, pessoal. — Amanhã a senhora pode trazer as crianças pra tomar café aqui com a gente. — Não posso, minha religião é contra isso que vocês estão fazendo. — A gente ocupou a fábrica pra garantir os empregos, dona. - alguém disse. — Tá errado, mas se meu marido quer, bom... ele que manda... e pode até trazer as meninas. — Obrigado, gente! - diz o Jota, ainda meio comovido, e antes de se virar para descer a rua me pergunta: — Posso voltar amanhã? - sorrio e com a cabeça faço que sim. — Olha, eu sei que está certo, eu sei. - finalmente se vira e aperta o passo para alcançar a esposa.
Aos poucos todos vão se dispersando, dois operários comentam sobre o que eles gostariam de fazer com certa fulana e dão uma gargalhada. Fiquei pensando como eles conseguem passar de um estado para o outro sem nenhum problema. Certo, sou um pequeno-burguês, mas...
*
— Foi impressão minha, ou você ficou com os olhos cheios de água na hora da vaquinha pro seu Jota? — Ah... eu... eu... — Deixa pra lá. Cara, como é difícil dormir nesse colchonete, muito duro. Fico aqui olhando pra parede pra ver se ela me hipnotiza. — Às vezes eu acho que até o chão é mais macio. — Isso foi uma piada? — Esquece. — Posso ler? — Ainda preciso trabalhar nele um pouco... — Vai, deixa de ser besta - diz enquanto se senta novamente e estende a mão. Entrego o papel.
*
ronda na fábrica ocupada
...me passa o revólver e me olha. — por que você está aqui? — pergunta — (sorrio sem mostrar os dentes) pega de volta e confere o tambor. devolve.
— gente estudada feito você devia fazer outras coisas, contar pra todo mundo sobre isso aqui, nossa luta. além do mais, você é muito franzino. olho no olho — resposta. sei que ele está satisfeito e até sorriria desde sua cabeça ampla. chama um camarada dos melhores. prontos, o camarada e eu. antes ele diz: — se algum dia precisar... se alguém te incomodar...
minha primeira ronda, vou tranquilo, na cintura o peso bom do aço disfarçado pela camisa, garantido por um camarada
e o olhar desse irmão recém-nascido.
* — Esquisito. - diz enquanto me devolve o papel. — Já falei, ainda vou trabalhar em cima. — Você é esquisito. — Tirou o dia pra pegar no meu pé. — Como é que alguém tem a idéia de ficar escrevendo no meio disso tudo? — Ué? sei lá. — ‘Sei lá’ é uma resposta boa, achei que vinha mais um papinho pequeno-burguês por aí. — ... Tá rindo de quê? — Nossa! Agora que baixou a adrenalina o sono bateu.
Mais uma vez ela se deita e acho que vai conseguir dormir, mas ainda está de olhos abertos, pensando... cada vez menos... menos... Apaga.
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