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Crítica Rasteira


O ARTISTA: pouco barulho por nada - Ademir Luiz

 



Os recorrentes resultados questionáveis do Oscar é um efeito colateral da democracia. Diferente de festivais como os de Cannes e Veneza, onde um pequeno júri decide os resultados, favorecendo a interferência de relações pessoais e influência política-econômica, o prêmio da Academia de Hollywood é decidido por uma votação com milhares de eleitores. As regras contra manipulação são rígidas, embora não infalíveis. Como em toda eleição direta, fenômenos de popularidade instantânea tendem a ocorrer e, eventualmente, podem sair vencedores. Nem sempre o melhor vence. Na verdade, nem sempre existe esse melhor.


É o caso do Oscar 2012. A 84ª edição do evento organizado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, ocorrido no dia 26 de fevereiro, foi fraca. Tanto na qualidade geral dos indicados quanto a festa em si. O espetáculo do Oscar, que sempre variou entre o cafona cool e o extravagante, nesse ano desenrolou-se sem ritmo, pobre, mal iluminado, mal dirigido, anticlimático etc. Isso pode ser explicado pelo fato de Brett Ratner, o diretor inicialmente contratado para comandar sua produção artística, ter sido demitido algumas semanas antes do evento. O resultado é que, visivelmente, tudo foi feito de última hora. Inclusive a contratação de Billy Cristal como apresentador, substituindo Eddie Murphy, que saiu junto com Ratner.


Difícil de explicar é “O Artista” ter sido o grande vencedor da noite. Por todos os ângulos que se olha, parece inflacionado o filme franco-belga ter convertido suas dez indicações em cinco estatuetas importantes: melhor filme, diretor (Michel Hazanavicius), ator (Jean Dujardin), figurino e trilha sonora original. O filme fica entre mediano e bom, longe de ótimo ou excepcional. A direção é convencional, mesmo levando-se em conta a proposta inusitada. O figurino não ousou, nem podia ousar. A trilha sonora é boa, mas mal utilizada em diversos momentos, chegando a atrapalhar a edição de som. O prêmio para Jean Dujardin é o mais defensável, embora ele mereça mais pelo carisma do que pelo peso dramático que emprestou ao papel de George Valentin, o personagem título; uma mistura de Rodolfo Valentino, Douglas Fairbanks e Gene Kelly. Prefiro sua impagável atuação como Brice, o surfista desmiolado. Principalmente porque, conforme apresentado no filme, George Valentin não é um artista na acepção da palavra. Mais do que um ator ele é um astro careteiro, uma figura mais atlética do que dramática. Um astro orgulhoso, que decide dirigir um longa-metragem por capricho. Seu fracasso enquanto artista criador é a crônica de uma morte anunciada. Ninguém de torna D.W. Griffith da noite para o dia.


O grande problema de “O Artista” é sua falta de ousadia. Vejo pouco mérito em fazer um filme mudo que se passa na época dos filmes mudos. Para isso existe fórmula. Basta aplicar. Seria um desafio muito mais considerável realizar uma produção muda que se passasse na época contemporâneo, sem utilizar o pobre recurso dos cartazes substituindo as vozes dos atores. Fazer da ausência do diálogo sonoro um recurso narrativo, não uma pseudolimitação. Temos exemplos notáveis nesse sentido: “2001 – uma odisseia no espaço”, de Stanley Kubrick, e “Sangue Negro”, de Paul Thomas Anderson, não usaram diálogo em parte considerável de sua duração. “A última loucura de Mel Brooks”, dirigido por Mel Brooks em pessoa, é totalmente mudo, com o objetivo de ironizar a “loucura” que foi fazer um filme desses em plena década de 1970. O que era piada com Mel Brooks virou projeto sério com Michel Hazanavicius, sendo vendido e comprado como tal.


“O Artista” sequer me parecer um filme mudo acima da média. Se tivesse sido feito em 1927, data na qual começa sua ação, imagino que se sairia bem na bilheteria, mas dificilmente entraria no cânone. Seria considerado uma emulação das tragicomédias românticas de Mary Pickford. Seus personagens são tipos bidimensionais: o astro boa-praça, a pin-up de bom coração, o mordomo fiel, o produtor bonachão, a estrela estridente, o guarda de transito comedor de rosquinhas, o cãozinho inteligente etc. Como comparar a chanchada de Hazanavicius com os melhores trabalhos mudos de Eisenstein, Abel Gance, Victor Sjöström, Chaplin, Buster Keaton, Fritz Lang, Erich von Stroheim, Murnau etc? Esses verdadeiros artistas provaram que as eventuais limitações do cinema mudo eram técnicas, não de temática.


A popularidade repentina de “O Artista” aconteceu pela falsa novidade que representa. Um tipo de retro chique. Mas quem costuma alugar, comprar ou assistir filmes mudos hoje em dia? Não creio que seja regra nem entre os famigerados velhinhos da Academia, que não são velhinhos da década de 1920, mas jovens senhores botocados nascidos no pós-guerra. Não acredito que “O Artista” será lembrado. Vai ficar no rodapé da História do Cinema como uma curiosidade anacrônica, uma homenagem bem-intencionada aos primórdios do cinema.


Infelizmente, “O Artista” foi pobre em desenvolver essa homenagem. O principal motivo é que um dos grandes temas do filme é a utilização do som enquanto fenômeno estético, mas Hazanavicius não conseguiu explorar a fundo a questão, ficando no óbvio. A única cena na qual se esboça alguma originalidade é àquele onde George Valentin começa a escutar barulhos estranhos em seu camarim, sai e ouve as coristas rindo e conversando. Essa inusitada invasão sonora de seu universo mudo revela-se um sonho e dura uns dois minutos na tela. Durante todo o resto da projeção não encontramos mais nenhuma ousadia, tornando o troféu de Melhor Diretor injustificado. Hazanavicius fez um trabalho “bonitinho”, mas pouco criativo, apoiando-se em clichês. Talvez por isso tenha agradado tanto o gosto do público médio e os acadêmicos, considerando que o Oscar é um prêmio mais da indústria do que propriamente artístico.


Sei que não se julga uma obra pelo que poderia ser, mas pelo que é, porém não resisto em refletir sobre como seria fácil enriquecer “O Artista”. Por exemplo: por que ao invés da confusa cena onde apresentam um teste de som num estúdio fechado não mostraram os personagens assistindo “O Cantor de Jazz”, o primeiro filme sonoro? Além de ser um interessante aceno erudito, ver o “rosto cantante” de Al Jolson pintado de preto ajudaria na ambientação histórica. De resto, todos os trechos de filmes de Peppy Miller deveriam realmente ser falados, sendo, porém, assistidos por uma plateia que ri e se emociona muda. A dicotomia ficção falada contraposta a “realidade” muda tornaria a proposta de Hazanavicius muito mais multifacetada e rica. Um filme falado sem som não diz nada. Mas essas são apenas sugestões soltas.


A cena final dialoga com o clássico “Cantando na Chuva”, que discute temática parecida. Foi uma boa decisão mostrar o parentesco entre as obras, embora torne ainda mais evidente as fragilidades de “O Artista”, já que o coloca numa situação de comparação direta com seu primo rico. Até mesmo o simpático Jean Dujardin empalidece diante do brilhantismo quase genial de Gene Kelly. Fechadas as cortinas, fica evidente que o melhor de “O Artista” é mesmo o cãozinho.


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Ademir Luiz é doutor em História e professor da UEG