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Crítica Rasteira


GORILA NA ESTRADA – ADEMIR LUIZ

 

 


Alguns filmes funcionam como uma carta de intenções. Não são particularmente brilhantes ou bem realizados, mas servem para demonstrar que seus criadores são do ramo. Afinal, nem todos podem estrear com “Cidadão Kane”. Até mesmo futuros grandes mestres começam com “Fear and Desire” antes de chegar em “Glória Feita de Sangue”. Parece ser esse o caso de “A Fuga da Mulher Gorila”, assinado pela dupla de cineastas Felipe Bragança e Marina Meliande: uma promessa para o futuro. Sintomaticamente, é entre o medo e o desejo que o fino fio de narrativa do filme se desenha.


Trata-se de um Road Movie protagonizado por duas jovens irmãs que, usando uma comby fora de linha, parando de cidade em cidade, pretendem chegar ao litoral. Para se sustentar, reprisam o clássico espetáculo no qual, usando um jogo de espelhos, uma mulher finge se transformar em um gorila. De tom marcadamente melancólico, o filme é um parente distante de “A Estrada”, de Fellini.


Apesar do perceptível baixo orçamento, a dupla de diretores procurou produzir uma obra bem cuidada visualmente. Seu grande destaque é a fotografia. Quando a câmera está fixa, esmeram-se nos enquadramentos. Cada movimento registrado está sob controle. Em outros casos, com ela na mão, assumindo uma estética de documentário, aproveitam bem a sensação de sujeira e claustrofobia dos banheiros públicos e postos de gasolina da vida. Mas é preciso que o espectador aceite previamente essa proposta estética híbrida, de usar tanto o naturalismo quanto a hiper-montagem cênica, para não se incomodar com os civis olhando para a câmera nessas seqüências.


A opção pela economia nos diálogos foi inteligente. Ao mesmo tempo em que estabelece um estilo narrativo baseado em silêncios, dando-lhes sentido, é providencial por não expor em demasia a inexperiência do elenco. As atrizes Flora Dias e Morena Cattoni se esforçam, mas não parecem confortáveis no estilo naturalista onírico das falas do filme. Passam bruscamente de conversas despretensiosas para recitações poéticas e cantigas. Estando em silêncio, convencem mais. São, provavelmente, atrizes formadas no teatro, ainda com pouca cancha nas técnicas de interpretação para cinema.


“A Fuga da Mulher Gorila” é um filme construído sob o signo da nostalgia. Têm piercing e tatuagem, mas não há sombra de telefone celular. Têm leite de rosas e marchinhas de carnaval, mas nenhuma das meninas parece possuir perfil no facebook. É possível que tais detalhes possam incomodar os espectadores mais céticos. De fato, prejudicam bastante a verossimilhança do enredo, mas não é um pecado grave. Observo que essa Síndrome da Idade do Ouro, a saudade de um passado que não viveu, é comum em artistas brasileiros jovens. Insatisfeitos com seu próprio tempo, e com as referências da cultura contemporânea, tendem a emulam o que consideram interessante de outrora. O próprio espetáculo de transformação da mulher em gorila, que dá título ao filme, é o maior exemplo disso. Truque que já foi muito popular, parece pouco provável que ainda possa ser aplicado e render algum dinheiro. “Bye, Bye Brasil”, de Cacá Diegues, já nos anos de 1980, mostrou que essas diversões mambembes há tempos perderam espaço para a televisão. Ainda mais em regiões próximas do litoral carioca.


Esse anacronismo de “A Fuga da Mulher Gorila” também transparece no nítido desejo dos diretores de retratarem, pelos olhos e pela vivência de suas protagonistas, o submundo da pobreza e da marginalidade escondido no interior do Brasil. Jean-Claude Bernardet, em seu livro “Cineastas e Imagens do Povo”, demonstrou que quase sempre que diretores de classe média tentam se colocar no lugar do outro, do pobre, do marginal, do reprimido, acabam por reproduzir os mesmos estereótipos que imaginam estar combatendo. É o que acontece aqui. Salta aos olhos o desejo de “ser relevante socialmente”. Tal ingenuidade possui certo charme, certo frescor juvenil, mas é preciso ser superada nas realizações futuras, para se passar de carta de boas intenções a realidade objetiva. É preciso superar o medo, submeter o desejo, para alcançar uma glória feita de sangue, suor e lágrimas.


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Ademir Luiz é doutor em História e professor da UEG.