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| O bom-senso foi para o ralo - Rosângela Vieira Rocha |
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Não sei se isso se passa com vocês, mas uma das palavras que mais escuto atualmente é sustentabilidade. Ontem me dei ao trabalho de contar quantas vezes ela foi mencionada durante o dia, da hora que acordei até a hora de dormir. Dezessete vezes. É inacreditável, não? Quem duvidar, sugiro que faça o mesmo. O resultado não será muito diferente. É preciso registrar que nada tenho contra o conceito sistêmico de sustentabilidade. Reflexões, atitudes e comportamentos racionais em sua defesa, seja coletiva ou individualmente, são, inclusive, louváveis. O que não dá mesmo para suportar é esse tom de doutrinação e esse ar de catequista que muita gente assume quando o assunto vem à tona. Tão entojado quanto o gosto do óleo de rícino. Não me deixam mentir aqueles que, na infância, tiveram de provar da "iguaria", que nossas mães, pelo menos as do interior de Minas, nos obrigavam a ingerir. Servia para quê, mesmo? Nas Gerais, era voz corrente que óleo de rícino exercia múltiplas funções e "curava" uma miríade de enfermidades, além do seu caráter preventivo. Pelo menos é o que se comentava. Mas, voltando ao assunto central dessa crônica, vou relatar dois casos recentes, que me impressionaram muito, menos por sua importância do que por sua extravagância e exagero. O primeiro refere-se a notícia veiculada em importante telejornal. Como sempre comenta a Professora Márcia Marques, no facebook e fora dele, nossa imprensa anda com problemas de pauta. Parece existir uma dificuldade generalizada na avaliação do que é ou não importante, do que vale a pena noticiar, enfim, do que é ou não notícia. É estranho, pois um dos primeiros assuntos tratados no curso de jornalismo é justamente como se constitui o conceito de notícia. Aprende-se, em detalhes, o significado da expressão "critérios de noticibialidade". Pois bem. Há alguns meses, sentei-me distraidamente para assistir a um telejornal, com um livro na mão, como sempre faço, e fui surpreendida por uma notícia impensável: um dos repórteres citou uma pesquisa, algo assim, ou uma entrevista com um pesquisador que teria aconselhado as pessoas a fazerem xixi no boxe do banheiro, durante o banho, para economizar a água da descarga do vaso sanitário. Esse gesto, explicou o jornalista com a maior seriedade, seria muito significativo para o total do volume de água destinado a abastecer o planeta. Em seguida, outro repórter apresentou, se não me engano, uma estatística mostrando o expressivo volume de água que seria economizado por cada descarga não dada. Fiquei estarrecida. Aumentei o volume e larguei o livro no chão, mas o bizarro assunto já tinha terminado. Até hoje fico pensando se em algum momento os profissionais da imprensa perceberam o tamanho exato da asneira que disseram. Será que nenhum deles nunca lavou um banheiro na vida? Qualquer dona de casa ou pessoa com razoável bom-senso sabe que ninguém faz xixi impunemente no chão. E o cheiro que fica depois, não conta? E as impurezas da urina, que certamente impregnarão o local à medida que o ato for repetido? E se houver crianças na casa, que volta e meia sentam-se no boxe na hora do banho? Então é assim? O xixi vai para o ralo e tudo bem, fica por isso mesmo? Ninguém teve tempo de pensar, creio, que, para lavar o boxe em tais condições, seria necessário utilizar muito mais água que a da descarga, e que o feitiço viraria contra o feiticeiro. Sem contar o material de limpeza necessário, em geral bastante tóxico, pra dar conta de acabar com tão nefasto fedor. Deixando de lado a importantíssima pauta televisiva sobre onde fazer ou não xixi, outra notícia, dessa vez na mídia impressa, horrorizou-me. Sem querer adentrar no ingrato tema da escatologia, mas sem poder sair totalmente dele, trata-se de uma matéria apresentada como grande novidade: para "defender" o planeta dos absorventes higiênicos, que demorariam anos e anos para se desfazer e por isso constituiriam um lixo extremamente pernicioso, alguém resolveu fabricar toalhinhas laváveis, como as que eram usadas até os anos sessenta, "modernizadas", dessa vez, por que feitas com tecidos florais, de listinhas, bolinhas, etc. A estupenda novidade, que de nova não tem nada, "resolveria", por assim dizer, graves problemas do planeta. A matéria não apresentou nenhum questionamento quanto à aceitação das toalhinhas atualmente, ninguém mencionou o quesito higiene, ou a dificuldade para lavá-las, em apartamentos apertados e, por vezes, pouco ensolarados. O que é velhíssimo e foi descartado por não ser nada prático, aliás, uma coisa horrorosa mesmo, e só quem usou sabe disso, aparece como o último grito, o ouro da Babilônia, a maravilha das maravilhas. E a quantidade de água necessária para torná-las razoavelmente limpas, não conta? Não, os repórteres não questionaram, só tiraram fotos, e várias, sobre o incrível artefato nas formas floridas, listadas, e de bolinhas. Quanto a estas últimas, não me lembro se eram amarelinhas, como o biquíni da Ana Maria. É dureza, não? Que notícias tão edificantes, que preciosidades, que pérolas de sabedoria! E depois se queixam da falta de informação do povo brasileiro. Pode?
------------------ Rosângela Vieira Rocha é escritora, jornalista e professora.
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