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Crítica Rasteira


O nonsense em Woody Allen: a narrativa e geografia em Para Roma, Com Amor - Leonardo Campos
 

 

 

 

 

1. Woody Allen e o cinema de autor na contemporaneidade

 

Para Roma, com Amor é o mais recente filme do diretor Woody Allen lançado nos cinemas. Assinando, concomitantemente, o roteiro da produção, Allen dividiu a trama em quatro esquetes e retoma alguns dos temas mais recorrentes em sua carreira, como por exemplo, a crítica à sociedade de espetáculos e relações amorosas. O primeiro segmento nos mostra um casal americano, interpretado por Allen e Judy Davis, viajando para Roma, no intuito de conhecer o noivo da sua filha, num episódio hilário que ainda envolve um homem comum com talento digno de cantor de ópera (Fabio Armiliato), mas que só consegue “atuar” no chuveiro, levando os envolvidos na história a um epílogo absurdo.  Outro segmento retrata um arquiteto da Califórnia (Alec Baldwin) que visita a Itália e, inebriado pelo ar italiano, adentra numa fantástica e envolvente viagem repleta de artifícios memorialistas, tornando-se um breve conselheiro do jovem Jack (Jesse Eisenberg), um rapaz apaixonado e confuso diante do brilho da recém-chegada (Ellen Page), amiga da sua namorada (Greta Gerwig). No terceiro segmento, os recém-casados Milly (Alessandra Mastronardi) e Antônio (Alessandro Tiberi) adentram numa confusa situação típica das comédias de erros, envolvendo um astro do cinema e uma prostituta (Penélope Cruz). No quarto segmento, alvo da nossa reflexão, temos a história do monótono Leopoldo (Roberto Benigni), homem comum que de repente se descobre celebridade e passa a ser perseguido pela mídia, ávida de informações pueris sobre o seu cotidiano. Estruturado com base na estética nonsense, explicitada mais adiante, este segmento é o foco deste artigo.


 

2. Woody Allen e o cinema de autor na contemporaneidade

 

Diante da dieta dos filmes arrasa-quarteirões oferecida pela indústria do cinema contemporâneo, Woody Allen, aos 77 anos, com mais de quarenta filmes no currículo, consegue manter a média de uma produção por ano, distraindo o seu público fiel e cativando novos admiradores. Nas palavras da atriz Judy Davis, que interpreta a esposa do personagem de Allen no filme, “para você, a aposentadoria se equipara à morte”: mostrando que a autorreferência também ilustra a narrativa. Esse ritmo frenético de criação nem sempre nos oferece momentos grandiosamente inspirados e o resultado é Para Roma, com Amor, comédia do diretor vanguardista, apresentando um novo produto após surpreender o público com o magistral Meia Noite em Paris, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro Original, na cerimônia de 2012.


Para Roma, com Amor mostrou que consegue manter um elevado nível de fluência em sua narrativa, composta de episódios que não se cruzam. Apesar de ser um Woody Allen menos empolgante, o filme mostra que o diretor ainda sabe agradar ao seu público e continua comunicando bem, fazendo parte do painel que o ensaísta Jean-Claude Bernardet intitulou de “Poder de troca”: assim como o star system hollywoodiano que emergiu nas primeiras décadas do século XX, Woody Allen, ao lado de cineastas contemporâneos, como por exemplo, Lars Von Trier e Pedro Almodóvar, figuram o sistema de poder de troca. As pessoas vão ao cinema para ver o novo filme de Woody Allen, não importa o título ou o tema. Em Para Roma, com Amor, o diretor investe na sua velha persona neurótica, retornando à frente das telas após seis anos de reclusão, quando apareceu no preguiçoso Scoop – O Grande Furo (2006), comédia britânica ao lado de Scarlett Johansson e Hugh Jackman. Independente dos problemas, a crítica louva o fato de Woody Allen conseguir manter o status de cinema de autor numa época de produções cada vez mais tecnologicamente mirabolantes, com roteiros pífios e enredos idem.


Neste artigo, a proposta central é explanar como o diretor utiliza a estética nonsense no regimento de um dos seguimentos do filme, com foco no personagem Leopoldo, interpretado pelo ator italiano Roberto Benigni. Ele é um pai de família que vive uma vida comum, e de repente, é alçado ao status de celebridade, tendo a sua via particular invadida e concedendo entrevistas que beiram ao absurdo, parecidas com aquelas que vemos constantemente nos programas televisivos, falando sobre trivialidades como a refeição da noite anterior, manias ao dormir e que creme dental utiliza para escovar os dentes. Vale ressaltar que este universo já foi trabalhado pelo diretor em 1998, com o interessante Celebridades, filmado em preto-e-branco e protagonizado por Leonardo DiCaprio e Charlize Theron.


 

3. Por uma definição da estética nonsense

 

A definição sumária da estética nonsense a identifica como uma modalidade de narrativa sem sentido, denotativo de algo disparatado, sem nexo. No geral, quando fazemos referências ao nonsense, Lewis Carroll e Edward Lear, ambos ingleses e ícones da história da literatura, povoam o nosso imaginário, principalmente Carroll, com a sua enigmática Alice, personagem dos livros Alice no País das Maravilhas e Alice no País dos Espelhos.  À guisa de maiores esclarecimentos, cabe ainda nesta prévia definição, esclarecer que o Surrealismo e o Dadaísmo, modalidades artísticas modernistas, exploram bastante o nonsense. Desta forma, literatura e artes visuais abordam esta estética para um fim narrativo especifico, como Woody Allen o faz em uma das esquetes de Para Roma, com Amor.


De acordo com Gilles Deleuze, o nonsense não designa algo sem sentido. Em A lógica do sentido, o teórico expõe que a estranheza desta tipologia narrativa tem uma lógica própria, dentro de uma realidade idem, que geralmente desafia a realidade que temos como normal.


O nonsense é uma tipologia discursiva não fixada a aspectos estruturais, ou seja, revela o problema histórico cultural do relacionamento entre o autor e sua contemporaneidade. Foi assim com Lewis Carroll e as desventuras da curiosa Alice no País das Maravilhas, marco de questionamentos da Era Vitoriana e assim se manifesta na produção cinematográfica de Woody Allen e a sua relação com os tempos contemporâneos. Para Roma, com Amor, inclusive, oferece um ótimo exercício de crítica sociológica, modalidade de análise que relaciona a obra ao seu momento de surgimento, identificando traços da realidade social que permitem ilações com os conteúdos expostos pela manifestação artística analisada. O mundo vazio das celebridades e suas afetações são alvo das críticas de Woody Allen no episódio analisado.


Na narrativa de cunho nonsense, é possível detectar o modo como o autor percebe a sociedade em que vive e se integra. Um tipo de escrita que surge como via de protesto. Há tons humorísticos no discurso, não anunciando apenas o absurdo, mas uma espécie de niilismo entre o mundo e as suas representações, nós próprios e as coisas.


O nonsense é um discurso que inverte a coerência lógica do mundo, ligando-se ao excêntrico. Estas são observações de Anthony Burgess, autor de Laranja Mecânica, um clássico moderno da literatura, que ainda considera tal estética como um modo bizarro de fazer sentido. Em seu ensaio intitulado “Nonsense”, discorre que a mesma é um misto de sarcasmo e riso, ingenuidade e ternura.


Estas afirmações ficam mais cristalinas quando as associamos ao histriônico Leopoldo (Roberto Benigni), um monótono pai de família que se transforma em celebridade de forma absurda, decaindo da mesma maneira instantes depois.


 

4 – Por uma geografia cinematográfica: tempo e espaço em Para Roma, com Amor


 

Woody Allen perambulou a Europa nos últimos anos, mostrando ao público certo fascínio pela cultura do continente. Situou Scoop – O grande furo (2006), O Sonho de Cassandra (2007) e Você vai conhecer o homem dos seus sonhos (2010) em Londres, depois nos levou para a Espanha em Vicky, Christina, Barcelona (2008), passeando pela França em Meia Noite em Paris (2011), aterrissando na Itália no filme foco deste artigo, Para Roma, com Amor.


Roma foi o espaço escolhido para situar o enredo e ser palco das situações enfrentadas pelos personagens, como Leopoldo e a perseguição midiática, alvo central da nossa análise, mais profundamente exposto adiante. Com os episódios “colados” através de uma montagem eficiente, que tem como recurso sonoro os clássicos Arrivederci Roma, Volare e Amada Mio, Amore Mio, a narrativa fotografada com maestria por Darius Khondj, mantém-se aliada aos enquadramentos, panorâmicas e diálogos que exaltam Roma e as suas belezas, não neutralizando o espaço em que as situações adversas acontecem e imprimindo belas imagens que fazem bastante apologia aos aspectos culturais italianos, mesmo que em um momento e outro, a automatização do estereótipo queira se manter presente, mas sendo vencida pela não obviedade do roteiro de Woody Allen.


 

5 – Estética nonsense e perseguição midiática: sobre o personagem Leopoldo

 

Vivendo um homem comum, pai de família e trabalhador, Leopoldo acorda todo dia no mesmo horário, volta para casa do mesmo jeito dia após dia e mantém-se apático quase o tempo todo. De repente, descobre-se uma celebridade, perseguido pela mídia em todos os locais que resolve aparecer, com entrevistas na imprensa marcadas, discursando sobre bobagens como roupas e cosméticos que utiliza.


Neste segmento, Woody Allen reforça com bastante ironia a velocidade que a mídia ergue uma celebridade, destruindo-a assim que algo novo surja no horizonte. Ao debochar da cultura midiática e suas relações pueris com o mundo das celebridades, o diretor tece este segmento regendo com empolgação o histriônico Roberto Benigni e conduzindo a narrativa nonsense com traços de uma formação culta, trazendo a tona leituras como a provável influência do instigante O Processo, de Kafka.


A esquete apresenta os altos e baixos de ser uma celebridade: ao mesmo tempo que você é perseguido constantemente, também pode ter a prerrogativa de sair com as mulheres mais bonitas, geralmente modelos materialistas e vazias, ou mesmo entrar em um disputado restaurante, exalando sofisticação e recebendo tratamento de primeira classe. Leopoldo experimenta desse tempero que é a fama advinda do nada, com traços de humor e pitadas de absurdo caracterizadas pela estética nonsense, muito bem empregada por Woody Allen. Alçado ao estrelato e destruído de forma semelhante, o personagem Leopoldo enfrenta posteriormente o obscurantismo de uma celebridade esquecida, que ninguém mais se recorda, desesperado com a perda do status de ícone, cheio de bajulações e prioridades, agora relegado ao ostracismo.


Como dito anteriormente, a narrativa de cunho nonsense nos permite detectar o modo como o autor percebe a sociedade em que vive e se integra, com suas Angelinas e Brads, um tipo de escrita que surge como via de protesto, como Woody Allen já o fez em diversos filmes, e até mesmo na vida real, em premiações como o Oscar, no qual nunca apareceu para receber os prêmios que já ganhou ao longo da sua carreira.  Há tons humorísticos no discurso, graças, em boa parte, aos maneirismos típicos do italiano Roberto Benigni, mais conhecido mundialmente pelo clássico moderno A Vida é Bela, anunciando, entre tantas coisas, o absurdo e uma forma bizarra de fazer sentido.

 


 

5 – Referências

 

ÁVILA, Myriam. Rima e solução: a poesia nonsense Lewis Carrol e Edward Lear. São Paulo: ANNABLUME, 1995 (Selo Universidade)

AUMONT, Jacques. A análise do filme. 2ª edição. Tradução: Marcelo Félix. Lisboa: Editora Texto e Grafia, 2004.

BRAIT, Beth. A personagem. São Paulo: Ática, 1990.

LAX, Eric. Woody Allen: a biography. New York:Knopf, 1991.

TIGGES, Win. Explorations in the Field of Nonsense. Amsterdan: Rodopi, 1987.

VANOYÉ, Francis; GOLIOT-LETÉ, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. São Paulo: Papirus, 1994.

 

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Leonardo é professor de Língua Portuguesa e Literatura, pesquisador do grupo Polifonias (UFBA) e crítico de cinema.