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Crítica Rasteira


AL BERTO, UM METEORO - Rodrigo da Costa Araujo

 


 

 

Para Latuf Isaias Mucci

que me apresentou Al Berto



 

 

Depois de ler o livro O Medo (2000), de Al Berto, quase de uma vez só, fica-se pensando, de olhos fechados, num sujeito/poeta nebuloso, indefinido, mas apaixonante e convidativo. Fica-se reclamando novo contato ou leitura e maior aproximação, e o convite, muitas vezes, torna-se irresistível. De qualquer forma, a leitura da poesia de Al Berto exige velocidade, expõem as suas capacidades mais próprias, as de serem múltiplas, plásticas, transgressoras e, a um tempo, inscrição, alteridade e brilho.


Foi com esse brilho e nessa rapidez, também, que a poesia albertiana compareceu na literatura portuguesa, como uma espécie de estrela cadente, solta da galáxia, correndo anos-luz, em fuga e desrespeito à estabilidade celeste. Veio direta, cega, com seu brilho, sem apalpar o escuro, sem escolher caminho, apesar de ter percorrido vários deles.


Perceptível apenas como um ponto luminoso, à longa distância, Al Berto foi uma surpresa caminhante, enigmático e perscrutador. Perturbador também, porque chega vertiginoso, carregado de energia densa e magnética. Sua escritura traz feições dessa rapidez e imagem insólita: “há dias que o lápis te foge, resiste como um objecto estranho/ persistes, esboças o rosto de cera apercebido no espelho, no fundo quieto do rio” (2000, p.82).


Todos os seus livros falam de um mesmo rosto que se procura na linguagem do espelho, forçam o leitor a descobrir o sentido moral e estético de suas reticências. São como óperas sincopadas ou sinfonias inacabadas, mas são envolventes nos arroubos ou na aparente simplicidade. Atraem, enleiam, enfeitiçam e introduzem o leitor como personagem e participante de suas poesias, confissões poéticas, romances e suas diabruras. Na verdade, a força de sua escrita revela um outro desejo “queria ser marinheiro correr mundo/com as mãos abertas ao rumo das aves costeiras/ a boca magoando-se a sonolenta canção dos ventos” (2000, p.296).


Alberto Raposo Pidwell Tavares (1948-1997) ou mesmo Al Berto, ligeiro, transgressor, atraente e inovador, veio compor a Via Láctea da Literatura Portuguesa, dando vida, força e movimento à palavra escrita, libertando-a de amarras e regras literárias convencionais. Sua poesia questiona a forma, as convenções do gênero, as marcas clássicas do convencional, as normas da língua portuguesa, os códigos estabelecidos, a moral, a sexualidade e as escolhas.


O silêncio, a melancolia, a solidão, o corpo, o mar, o esteticismo e muitos outros temas são questões e características que pontuam suas escolhas poéticas. Al Berto é eletrizante ao descrever qualquer viagem e transferi-la para o seu leitor. “A noite trazia-me aragens com cheiro a corpos suados/cantares e danças em redor de fogos que eu não sabia” (2000, p.298), ele transmite vida às linhas do texto, carregando-as de energia ao contato de seus dedos e olhos, emitindo sempre mensagens sem retoque. Do imaginário, ele passa para o real, para o existencial até à fusão do espírito e da carne, do amálgama da poesia e ficção. E ainda recomenda: “virava todo o meu sentir para o mar/quando no medo dos míticos promontórios/ se rasgou a oceânica visão... a ânsia de partir” (2000, p.301).


Na sua sinfonia literária, carregada de pianíssimos e crescendos, repleta de mistérios e divagações, ele é sempre imprevisível. Do esplendor da galáxia, desce e captura a minúscula luz de uma paisagem, mas a luminosidade é a mesma, irradiante, repleta, múltipla.


Al Berto tem um mundo próprio, todo seu, enorme, surpreendente, e sente necessidade de refleti-lo para fora, para os outros, para quem possa entendê-lo ou não. Esteta, como Oscar Wilde, sua escrita, apesar de leves diferenças, revela certo tom de beleza inconfundível: “a morte é uma relâmpago suspenso sobre o coração” (2000, p.333)/ “e da nossa passagem permanecerá/ o deslumbrante rumor dos fogos sobre o mar” (2000, p.333).


Pelas suas múltiplas cores, para avistá-lo, porque meteoro, é preciso reconhecer o impulso que imana o leitor. A partir daí, segue o hipnotismo e o rastro luminoso para suas divagações voluptuosas, carregadas de emoções e inquietudes, nem sempre lógicas, mas interrogativas, transgressoras, existencialistas, envolventes. O próprio leitor é levado - arrastado pela sua trilha luminosa e errante - a perscrutar algumas metáforas, não importa se reais ou fictícias, surreais ou insólitas. Ele - o leitor - vale-se de emaranhados de sentimentos, uma espécie de labirinto, em que se procura uma saída para o subconsciente.


De todas as leituras, ficam sempre leves marcas, impressões digitais, marcas do corpo, peso das palavras, leveza da escrita, desejo de uma poética do erótico. Algumas vezes delicada, outras vezes excitante.  Comparecem em suas poesias, o registro sensorial da palavra, o silêncio, a festa imaginária que recria o corpo, mesmo se o tema não é erótico, a escrita erotiza o significante.


Impressão Digital, por exemplo, é um livro que a linguagem segue o mesmo ritmo da redondez erótica - impressões do corpo, sutilezas do tato, cicatriz da memória. O corpo erógeno e palavra jogam com o prazer de criar a suspensão do sentido. A ambiguidade que dá pistas, mas não resolve, decididamente, do significado, resulta na excitação - preliminares eróticas. Todo o livro O Medo, coletânea de muitos outros, é um livro vivo, compilação de emoções que surgem e manifestam-se, gemem, gritam, lamentam-se, protestam no silêncio, no escuro, na solidão, vibrando ao impacto da vida real e sensível.


Apreciável, como as luzes de um meteoro no céu noturno, a poesia de Al Berto é lenta vertigem, paixão e desejo de escrever. Ao mesmo tempo em que metalinguística, porém pelo seu plano opositivo, também revela, sutilmente, a agonia de não conseguir a palavra ideal: “os poemas adormecem no desassossego da idade. fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite, assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas... e nada escrevo” (2000, p.595).


Da escrita visceral de Al Berto, ecoam outros poetas da tradição portuguesa e de suas leituras pessoais: Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Cesário Verde,  Mário de Sá-Carneiro, Antonio Botto. Estes, estetas e transgressores. Seu discurso integra outros ainda, como Oscar Wilde, Rimbaud, Genet, Baudelaire. Como espelho poliédrico, esses poetas assumem vozes em Al Berto. Funcionam como projeção, recortes/aspirações para sua própria poética, metáforas da condição literária. O espelho é, ainda, estratégia que possibilita o ingresso em outros discursos, como a música pop e as artes visuais. Sua poesia, portanto, retoma e recria, criativamente, esses rastros discursivos.


Da sua poesia, também, ecoam algumas experiências urbanas de Bruxelas, Paris e Barcelona. Experiências e deambulações, que revelam suas preferências por um discurso poético, que imbricam ficção e poesia, vertigem e velocidade, confissão e encanto próprios de atitudes do flâneur. Poesia marcada, também, de vivências do poeta por uma Europa notadamente underground dos anos sessenta e setenta.


Dessas múltiplas facetas, o poeta-meteoro é também pintor. Ele dialoga com essas cidades numa linguagem mais próxima da sua plasticidade original. Essas mediações pictóricas são estabelecidas, entre a legibilidade da poesia e do texto urbano que se oferecem, visualmente, no lirismo ímpar.


O leitor, ao acompanhar o exercício da dialética da flânerie e desses vários diálogos com a tradição literária, evidencia o desenraizamento de Al Berto e sua memória, a resgatar fragmentos de versos ou escolhas que se inserem nos seus discursos. Essas retomadas e opções, no entanto, reforçam a constituição de sujeitos que proliferam em sua poética, tematizando ideias e cenários, onde se diluem as metáforas rumo a uma escritura radical de demarcação, entre urgência e melancolia, diferença e transgressão poética.


Por isso, a conexão biografia-obra é, em alguns momentos, inevitável, já que dessas releituras nascem uma relação especular. Não se trata de uma obra, predominantemente confessional, é uma obra que ficcionaliza, através da palavra poética, o drama de um sujeito situado, aquém do espelho. Espelho-texto, a poesia de Al Berto, pela sucessão de máscaras que esconde, atende à urgência de mascarar a errância e o homoerotismo.


Pela sua natureza pós-moderna, a poesia albertiana, também, apresenta contradições. Feito os meteoros, sua escrita fragmentária, assemelha-se com partículas de poeira ou rocha que fica voando pelo espaço textual em alta velocidade. Quando entra na atmosfera literária, principalmente a lusitana, torna-se incandescente e pega fogo, construindo um imenso risco no céu. Pela sua distância no espaço celeste, em relação ao leitor, os meteoros parecem que são grandes, mas na maioria das vezes, não passam de pequeninos grãos de areia.


Fácil de ler e ver Al Berto, difícil penetrar na sua malha poética e analisar algumas incoerências, bem como as indagações pessoais dos sujeitos de seus textos, transgressores, autônomos, com decisões próprias, como sujeitos marcados para desempenhar, cegamente, algum comportamento criado para ele.


Como meteoro, a poética de Al Berto rasga o céu brilhando com intensidade. Arrasta consigo, além do olhar atônito do leitor, a beleza, o jogo de luzes e a rapidez que surgem queimando-se e destruindo-se, até o impacto final com algum planeta. Na face do planeta, a cratera indelével marca para sempre algum momento histórico e estético.

 


Al Berto chegou como um meteoro: cego, vertiginoso, inesperado, reluzente, interferindo no brilho e na constelação da poesia lusitana.

 


 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

Al Berto. O Medo. Lisboa. Assírio & Alvim. 2000.


 

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Rodrigo da Costa Araújo é professor de Literatura Infantojuvenil e Teoria da Literatura na FAFIMA - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé, Mestre em Ciência da Arte (2008-UFF) e Doutorando em Literatura Comparada [UFF].